quinta-feira, 22 de julho de 2010

Tornado na Serra pode ter tido vento de 200 km/h

Vento destrutivo deixou pelo menos 40 casas destelhadas e 12 completamente destruídas entre Gramado e Canela pouco antes das 21h desta quarta-feira (21/7). Pelo menos 12 pessoas feridas foram atendidas no Hospital de Canela. Os bairros atingidos no município foram o Santa Terezinha, Quinta da Serra, São José, Vila Cedro e Vila Maggi. Locais conhecidos na estrada entre Gramado e Canela, como a Churrascaria Zelão, sofreram pesados danos. Uma indústria foi completamente destruída e uma residência partida ao meio. Outras, pré-fabricadas, voaram. Árvores foram sugadas do solo. Grossos troncos de árvores acabaram decepados. Telhas retorcidas e postes caídos podiam ser vistos por toda a zona como se tivesse havido um bombardeio "Eu nunca tinha visto nada semelhante", contou o prefeito de Canela, Constantino Orsolin. Segundo Orsolin, 300 residências foram atingidas e mais de 200 árvores arrancadas. "No Santa Terezinha, há áreas em que parece que passou uma motosserra", contou (fotos do grupo Sinos e Rita Souza/ Prefeitura de Canela).
















O primeiro sinal de alerta para a MetSul Meteorologia de que algo muito grave havia ocorrido em Canela se deu quando, logo após 21 horas, quando surgiu o dado da estação automática no município do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) acusando vento de 124 km/h. Imediatamente entramos em contato com a Brigada Militar de Canela e enquanto esperávamos para ser atendidos ouvimos o desespero dos policiais militares no rádio da corporação pedindo que fossem chamados os colegas de folga. A partir deste momento passamos a todo momento a gerar informações em tempo real no Twitter da MetSul sobre o que ocorria na Serra.


A MetSul Meteorologia não têm dúvidas de que um tornado passou pela região entre Gramado e Canela, tanto que os jornais atendidos por nós (Grupo Sinos e Correio do Povo) já saíram hoje com a notícia de tornado na capa e não com múltiplas hipóteses para o fenômeno em seu noticiário impresso. Os danos de ontem à noite repetem imagens muitas vezes vistas antes em tornados no Rio Grande do Sul. Todas as características sinalizam inequivocadamente para um episódio tornádico como concentração de danos numa faixa, severidade dos estragos e relatos de moradores de que o vento intenso durou menos de um minuto, 40 segundos em muitos depoimentos. Há um dado meteorológico relevante. Enquanto a estação automática do Inmet registrou vento de 124 km/h, uma outra estação automática, essa pessoal, instalada no Condomínio Quinta da Serra, a apenas 450 metros de distância do equipamento governamental, não acusou nada de vento intenso, confirmando a idéia de tornado e descartando completamente a possibilidade de microexplosão.

É equivoco acreditar que a velocidade máxima do vento atingida entre Gramado e Canela tenha sido aquela indicada pela estação do Instituto Nacional de Meteorologia de 124 km/h. Por onde o tornado passou o vento foi muito superior. As imagens dos danos são consistentes com um tornado de categoria pelo menos F2 na escala de Fujita, ou seja, vento entre 180 e 250 km/h. Uma das imagens mais impressionantes de danos mostra o tronco de uma árvore, grosso, completamente decepado, quando em regra as imagens que se têm de árvores ‘cortadas como se fosse por uma navalha´ em tornados aqui no Sul do Brasil são de espécies com troncos mais finos.


Há um dado crucial que explica a formação de tornado. A história climática do Rio Grande do Sul mostra que em diversos episódios de tornados no Estado havia a presença de uma intensa corrente de jato (vento) em baixos níveis da atmosfera atuando. Era o que se via no dia de ontem. A análise das 0Z de 22 de julho (hora aproximada do tornado) mostrava um jato de baixos níveis intensos com vento de 35 m/s (130 km/h) exatamente sobre a Serra. Favorecendo ainda a divergência de vento (shear) que tende a estimular eventos severos se notava a presença do jato subtropical ativo sobre o Rio Grande do Sul. Ademais, avançava ainda uma frente fria e o gradiente (diferença) de temperatura era acentudíssimo a ponto de pouco antes do tornado (20h) Canela registrar 21,7ºC e no mesmo horário cidades mais ao Sul estarem com 11ºC a 13ºC.




Os acontecimentos de ontem à noite entre Gramado e Canela são uma triste repetição de tornados ocorridos nesta mesma época do ano em cidades também da Serra. Como as correntes de jato atuam de Noroeste para Sudeste e a Serra fica muito exposta a este tipo de evento, num período do ano em que não raro há o avanço de frente frias com acentuado gradiente térmico, a região parece ser de alto risco para tornados no inverno. Os tornados de 19 de julho de 2001 em Bom Jesus e de 8 de julho de 2003 em São Francisco de Paula se deram sob condições semelhantes às observadas ontem à noite (fotos abaixo da Defesa Civil/RS).


Criou-se o mito na mídia de que não existe como prever tornados no Brasil. Em nenhum lugar do mundo é possível se antecipar com grande antecedência qual ponto exato pode ser atingido, mas se é capaz de antecipar uma região sob risco, o que os americanos denominam de tornado watch. Ainda no domingo, 72 horas antes, a MetSul alertava aqui em seu site que as condições se assemelhariam àquelas que trazem tornados. Na tarde de terça-feira, em notícia publicada no portal do Correio do Povo, antecipava-se o risco de tornado nesta quarta-feira. No Jornal NH que passou a circular quarta de manhã advertia-se que a Serra estava em área de risco para vendavais destrutivos. No jornal do Grupo Sinos a MetSul especificava, inclusive, a faixa horário de maior risco (20 a 21 horas de ontem), exatamente o horário em que se produziu o tornado na Serra.



Em Imigrante, pequeno município junto à Serra, no Vale do Taquari, um violento temporal por volta das 18h de ontem espalhou danos severos no interior da localidade. Pelo menos cinco aviários ficaram completamente destruídos, matando milhares de frangos. Casas e galpões também sofreram muitos estragos. Houve queda de diversas árvores. O temporal, além de intenso vendaval, veio acompanhado também de granizo.







O tornado em Gramado e Canela e a tempestade em Imigrante se deram no final de um dia marcado por condições um tanto peculiares para não dizer excêntricas no Estado. Ventania. Granizo. Chuva forte. Arco-íris. Frio intenso. Calor. A quarta-feira no Estado foi um raro dia de condições atmosféricas discrepantes e extremas. O Rio Grande do Sul esteve dividido. O Sul, a área de Santa Maria e parte do Oeste tiveram jornada invernal. Em Livramento o dia todo foi de temperatura de um dígito com máxima não superior a 9ºC. No Norte e no Nordeste do território gaúcho foi um dia abafado e quente. Em Iraí, a máxima alcançou 28ºC, 13ºC a mais do que na véspera. O intenso aquecimento foi resultado de corrente de jato (vento) em baixos níveis da atmosfera que trouxe também fortes rajadas de vento do quadrante Norte para o Norte gaúcho e que chegaram a 90 km/h nos Aparados. Na Capital, a temperatura subiu muito também e a combinação de calor e umidade fez com que durante a manhã ocorressem pancadas de chuva com sol, o que favoreceu a formação de raro arco-íris duplo (fotos de Luiz Paulo Monteiro e Suzana da Luz).



As massas de ar frio do Sul do Estado e quente do Norte estavam separadas por uma frente fria que provocou muita chuva. Em Pelotas, o volume chegou a 50 milímetros. Ao avançar sobre Porto Alegre, a frente também trouxe chuva forte com mais de 40 milímetros em poucas horas e precipitação torrencial em alguns momentos. Houve relatos de granizo em vários municípios da Serra e Grande Porto Alegre. A perspectiva de mais chuva no fim de semana traz preocupação agora quanto aos níveis de rios que já estavam altos ontem, antes da chuvarada, como o Uruguai, Sinos, Caí e Santa Maria. (Colaboraram o meteorologista Luiz Fernando Nachtigall e Alexandre Aguiar)



Autor: Eugenio Hackbart

Publicado em 22/07/2010 08:48
Fonte: DIRETO DA METSUL
Postar um comentário

Últimas dos Blogs